26/03/2021 às 14h01min - Atualizada em 18/06/2021 às 00h00min

Mercy For Animals expõe a realidade de granjas de ovos em Bastos - SP

Estrutura de diversas granjas de Bastos evidencia o confinamento intenso de galinhas, com gaiolas em bateria, condições precárias de higiene e extremo sofrimento animal, além de apontar a necessidade de discussão sobre possíveis riscos sanitários

SALA DA NOTÍCIA NQM
Divulgação

Um vídeo documentário divulgado esta semana pela Mercy For Animals (MFA) expõe a realidade da indústria de ovos na cidade de Bastos, no interior de São Paulo. Segunda maior produtora de ovos do país, a cidade é conhecida como a “Capital do Ovo” brasileira.

A produção nas granjas de Bastos é de aproximadamente 13,5 milhões de ovos por dia ou 150 ovos por segundo. O número de animais também é imenso: quase 80 mil aves por km2, a maior densidade de galinhas poedeiras no país. A maior parte dessas granjas de ovos confina as aves em gaiolas e as força a viver em um espaço menor do que uma folha de papel A4.

A investigação da MFA revela o confinamento de milhões de galinhas em gaiolas minúsculas e muitas vezes imundas. Utilizando um drone, o vídeo produzido pela organização mostra também um "mar" de galpões localizados no município.

Já há alguns anos, autoridades da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo têm alertado que, devido à alta concentração de animais e à proximidade dos galpões, caso a cidade de Bastos seja atingida pela gripe aviária, toda a população de galinhas do município poderá ser dizimada, já que o sacrifício dos animais seria obrigatório.

Estudos científicos demonstram que a elevada densidade de animais, associada ao estresse e às condições precárias de higiene, como o que se vê nas gaiolas em bateria usadas na indústria de ovos, favorecem a eclosão e a propagação de doenças zoonóticas, dentre elas a gripe aviária, que pode infectar humanos e levar à morte.

Um relatório tripartite da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) relaciona a densidade da população de galinhas e frangos como um fator amplificador do risco de propagação da gripe aviária.

A Mercy For Animals (MFA) é uma organização não governamental dedicada a combater o sofrimento de animais explorados para alimentação, que representam mais de 99,5% de todos os animais mortos no mundo a cada ano.

Cenas inimagináveis

A prática do confinamento em gaiolas em bateria é comum na indústria de ovos no Brasil. Milhões de galinhas são confinadas em gaiolas tão pequenas que mal conseguem se mover. Impossibilitadas de expressar comportamentos que lhes seriam naturais, como ciscar ou tomar banho de areia, e até mesmo de abrir as asas, esses animais passam de 18 a 22 meses sendo forçados a disputar alimento e água e, muitas vezes, morrem ou sofrem por ferimentos provocados pelo aramado das gaiolas.

Segundo a vice-presidente de Investigações da MFA, a médica veterinária Luiza Schneider, as galinhas são animais extremamente sensíveis ao calor. Como não possuem glândulas sudoríparas, um dos principais mecanismos de perda de calor das aves é a respiração ofegante, que pode causar alterações metabólicas e levar as galinhas à morte no caso de exposição a altas temperaturas.

Em condições naturais, elas buscam locais frescos, agacham-se e esticam as asas para dissipar o calor corporal. Quando estão presas em gaiolas, a única coisa que podem fazer para lidar com o calor é reduzir a ingestão de alimentos, aumentar a ingestão de água e respirar de modo ofegante. Durante os meses mais quentes do ano, a temperatura no interior de galpões não climatizados pode se tornar tão elevada que muitas aves morrem pelo excesso de calor corporal.

Só em 2020, uma onda de calor matou mais de 1 milhão de galinhas em granjas de ovos localizadas em Bastos.

As gaiolas em bateria (empilhadas uma em cima das outras) foram proibidas ou tiveram seu uso restrito na União Europeia e em diversos estados dos Estados Unidos. Apesar de inaceitável, considerando o sofrimento animal causado, essa prática terrível ainda é permitida no Brasil.

Em 2019, havia 118,5 milhões de galinhas sendo exploradas na indústria de ovos no Brasil. Mais da metade (53,7%) delas estava alojada em granjas de São Paulo (32,9%), Espírito Santo (10,8%) e Minas Gerais (9,9%). Estima-se que 95% das galinhas poedeiras no Brasil estejam confinadas em gaiolas em bateria. Nos últimos anos, a Mercy For Animals tem trabalhado muito próxima de empresas e consumidores em toda a América Latina para aumentar a conscientização sobre o tema. É importante salientar que o consumidor tem papel fundamental na diminuição do sofrimento dos animais de consumo.

”Uma das escolhas mais poderosas que os consumidores podem fazer para proteger as galinhas e outros animais do sofrimento é escolher alimentos à base de plantas. Cada vez que uma pessoa escolhe uma refeição sem produtos de origem animal, ela reduz a demanda que sustenta a exploração de animais pela indústria”, diz a vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider.

 


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